Ventos Revolucionários: Formação Teórico Política
CLASSES SOCIAIS...
Primeiramente cabe orientar que a formação política do movimento “ Ventos Revolucionários ” é uma formação libertária, isto é, que visa emancipar o ser humano das cadeias materiais e espirituais que uma civilização autoritária e mecanizada lhe impuseram. O sistema capitalista, é uma forma moderna de civilização, portanto conta com as mesmas bases de todas as civilizações anteriores como: hierarquia social, submissão ao governo estabelecido, Estado(força), repressão militar, guerra, exploração do trabalho, família patriarcal(autoritária), neuroses mentais, exploração do ser humano pelo seu próprio semelhante e suas conseqüentes CLASSES SOCIAIS.
Para analisar a humanidade não basta somente a história, a antropologia, sociologia, economia ou psicologia...é preciso interpelar, misturar todas para chegar-se a um resultado convincente da realidade social e histórica. Existe uma CULTURA e essa cultura é HUMANA, foi desenvolvida por vários fatores em diferentes épocas; daí a impossibilidade da história estar submetida a um só fator determinante. Nesse erro tivemos grandes pensadores, como Friedrich Hegel e Karl Marx, ambos alemães do século 19, que viviam numa época efervescente de idéias vindas do Renascimento e do Iluminismo, que colocavam o ser humano no centro da história. Hegel imaginou que a história era feita por IDÈIAS e que seu movimento dialético(isto é, contínuo) era impulsionado em última instância pelo progresso RACIONAL dessas IDÈIAS. Karl Marx, que foi discípulo de Hegel, enxergou o mesmo movimento dialético da história, só que Marx via que as “ idéias por si só nada podem realizar.Para realiza-las é preciso de homens que coloquem em jogo uma força prática ”, assim Marx, depois de ler “ O que é Propriedade? ” de Pierre Joseph PROUDHON, lançado em 1840, começa a perceber a importância das relações matérias e econômicas da sociedade e, de como estas, interferiam diretamente na formação social e mental da humanidade.
Só que, tanto Hegel como Marx, tentaram analisar a humanidade a partir de UM PONTO: para um era as IDÈIAS o ponto principal das mudanças e formações sociais;
Para o outro era as RELAÇÔES ECONOMICAS e suas conseqüentes práticas, o principal “motor” da história; Marx possui uma famosa frase que resume bem o seu pensamento dialético sobre a história: “ A história da humanidade é a história da luta de classes ”. Essa frase de Marx está bem embasada, pois CIVILIZAÇÂO rima com LUTA DE CLASSES, o problema da análise de Marx e seu método( Materialismo Histórico) é que ele, embora utilize outras ciências humanas além da ECONOMIA, privilegia as relações econômicas acima das outras esferas formadoras de CULTURA.
Então como vimos, analisar a humanidade em sua complexidade social e histórica não é trabalho simples, o que inviabiliza a utilização de uma só ciência ou fator para explicar a mesma. Pensadores da estirpe de Hegel e Marx não conseguiram impor um ponto de partida para a história, então, cabe a nós interpretar a realidade histórica que vivemos de uma maneira verdadeiramente DIALÉTICA, ou seja, buscando pontos de convergência entre as várias descobertas das ciências humanas, seja na área da psicanálise, seja nas áreas econômicas e materialistas, como a sociologia e a política.
Para explicar, a exemplo, o conceito do que são as CLASSES SOCIAIS, vamos nos utilizar tanto do Materialismo Histórico (marxismo) tanto da psicanálise e da antropologia, mas não estaremos presos a nenhuma delas somente. Quando utilizarmos, por exemplo, Lênin ou qualquer outro pensador marxista, isso não quer dizer que analisaremos tudo apenas do seu prisma, não, mas que naquela análise o seu pensamento casa com o que queremos mostrar.
O movimento “ Ventos Revolucionários ” não é marxista; possui uma orientação voltada para a análise Dialética da história, contando com todo apoio teórico que conseguir. Apesar dos diferentes tipos de ANARQUISMO que existe, o movimento espelha-se na prática política do Anarquismo de Proudhon, Bakunin, Kropotkin, H. D. Thoreau ou Ghandi(e outros). Por que a escolha do Anarquismo e não do Marxismo como referencial teórico político? Justamente pelo motivo já exposto acima: o marxismo privelegia o ponto inicial das RELAÇOES ECONOMICAS, que, apesar de serem importantes e científicas, não são as determinantes na formação de uma realidade, seja a capitalista ou uma futura sociedade socialista, portanto o marxismo torna-se insuficiente e até perigoso para as análises sociais e suas táticas de superação da atual ordem social; isto ficou bem claro na REVOLUÇÂO RUSSA de 1917 e na REVOLUÇÂO CHINESA de 1949, onde a revolução socialista foi tirada das mãos dos trabalhadores do campo e das fábricas pelo PARTIDO COMUNISTA , pois seguiram as interpretações de Marx da história de maneira religiosa, isto é, inquestionável. Essas revoluções começaram, como toda revolução socialista, a partir da AUTONOMIA do povo; começavam a se auto organizarem e a gerir a riqueza da sua sociedade de maneira socialista, isto é, sem hierarquia direta, tomando conta da produção, o que, em TEORIA, o marxismo dizia e parecia aprovar. Mas como a teoria de Marx(Materialismo Histórico) apostava mais nas RELAÇÔES ECONOMICAS do que nas RELAÇÕES HUMANAS para emancipar a humanidade, o resultado foi uma sanguinária forma de Estado, conhecido como DITADURA DO PROLETARIADO, seguindo a doutrina de Marx eles acabaram com o sonho do socialismo e construíram em Estado de horror e medo. Portanto, vamos nos utilizar de vários pensamentos marxistas, mas sem segui-los como marxistas, pois o socialismo é anterior a Marx, esse simplesmente chamou os outros socialismos de UTÓPICOS, relegando às suas análises e as de Friedrich Engels, como as únicas “científicas” e válidas de serem praticadas para a emancipação humana do trabalho e do capital. Mas esse “ socialismo científico ” mostrou-se insuficiente em suas análises humanas e sociais...a Rússia hoje é capitalista como qualquer país “ civilizado ” e a China...bem...nem precisamos dizer...os 20 milhões de mortos que a “Revolução Cultural” de Mao Tse Tung deixou; isso pra construir o socialismo e proteger a China da “invasão imperialista” econômica e cultural; após a morte de Mao, uma das primeiras providencias do Partido Comunista Chinês foi reinterpretar o marxismo de Mao, acabando com as cooperativas e centralizando tudo no Estado, além de abrir as fronteiras do país para investimentos estrangeiros, assim como fazia a União Soviética encabeçada pela Rússia; hoje o país vive num regime totalitário de partido único(isto é, inquestionável) e Estado forte, um forte capitalismo de Estado e uma forte repressão. Etc.
Agora o ANARQUISMO, onde esse conseguiu, mesmo por pouco tempo, vencer, mostrou-se eficiente para solucionar os problemas sociais e psicológicos causados pela civilização e seu sistema de classes sociais. Na Ucrânia de 1917 a 1920, tendo como líder revolucionário o trabalhador rural Nestor Mackno, que quase foi morto pelos marxistas russos ( Lênin, Trotsky, etc.) mas conseguiu escapar para a França com a ajuda da população. Mackno era um líder militar e ser humano comum, com suas qualidades e defeitos, mas onde ele passava e derrotava os donos de terras e de fábricas entregando-as aos trabalhadores, ele não deixava nenhum representante seu, nenhuma autoridade de seu exército, a cidade ou aldeia que libertava era gerida pelos próprios trabalhadores e habitantes dessa região. Um anarquismo puro, revolucionário como sua teoria e prática exige. Mas os BOLCHEVIQUES(marxistas) acabaram com tudo e quase mataram Mackno, pois ele era ANARQUISTA E NÂO MARXISTA, ou seja, ele acreditava na AUTO LIBERTAÇÃO DO POVO, enquanto os marxistas de Lênin e Trotsky acreditavam da DITADURA DO PROLETARIDO, comandada por eles, é claro, pois para Marx e o marxismo são os COMUNISTAS e não os PRÓPRIOS TRABALHADOES, que devem construir a sociedade socialista do futuro. No Manifesto Comunista de Marx e Engels, encontramos abertamente tal proposta política,que foi posta em prática pelos comunistas russos de 1917.
Outro exemplo da dialética anarquista encontra-se na GUERRA CIVIL ESPANHOLA
de 1936, onde os anarquistas coletivizaram terras e fábricas na maioria do país, mostrando na prática, novamente, que o marxismo estava errado em querer uma Ditadura do Proletariado, e que a AUTO GESTÂO dava certo,que os trabalhadores poderiam sim, por si próprios, levar a cabo a construção da ordem socialista, sem Estado ou controle partidário e policial. Devido as interferências fascistas e nazistas a revolução foi vencida, mas o que mais atrapalhou a revolução espanhola foi a interferência da marxista e stalinista(Stalin – ditador que assumiu a chefia do governo russo após a morte de Lenin em 1924) União Soviética, que combateu as milícias anarquistas e marxistas(libertárias), tirando as terras dos trabalhadores e devolvendo aos “ proprietários ” , tirando o controle da indústria dos operários e colocando-as sobre o controle do ESTADO, acabando com as milícias e restituindo o EXÈRCITO. Mas havia sido demonstrado, mais uma vez na história, que Marx estava errado em não acreditar, como disse Proudhon, na “ Capacidade Política da Classe Trabalhadora”. Eis que o lema da AIT( Associa- cão Internacional dos Trabalhadores – “Primeira Internacional”, dizem os marxistas) era:
“ A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores ”
Não é a toa que tal organização foi dissolvida por Marx e seus partidários, e fundaram depois a Internacional deles, a “ Segunda Internacional ”, de inspiração unicamente “marxista”, apoiando-se nas candidaturas operárias e no parlamentarismo, visando desde já colocar o projeto de Marx em prática: conquistar o Estado para os trabalhadores e geri-lo em nome do “comunismo”. Nessa “Internacional”, claro, não era aceita idéias “anarquistas”, como: AUTONOMIA DO INDIVÍDUO E AUTO GESTÃO. A Segunda Internacional acabou apoiando a participação da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, afirmando contra os poucos contrários a essa aberração, que os “ socialistas sabem defender a pátria ”. Rosa Luxemburgo disse ironicamente parafraseando a famosa frase de Marx e Engels...
“ Operários do mundo..uni-vos em tempos de paz e matai-vos uns aos outros em tempos de guerra ”.
Rosa até recorreu a resoluções da AIT para defender seus princípios internacionalistas, isto é, humanos, como a Greve Geral e a desobediência aos generais: “ Quando disserem “ Atirem!”,
cruzem os braços”, mas a herança materialista de Marx e Engels não correspondia aos ideais elevados de Rosa Luxemburgo, que se identificavam mais com o anarquismo que com o próprio marxismo, mas Rosa era marxista e não anarquista, mas não era dogmática, criticou severamente Lenin e Trotsky por suas medidas ditatoriais que excluíam os trabalhadores de estarem construindo efetivamente o socialismo e criou seu próprio grupo: “ A Liga Espartaquista”, rompendo definitivamente com a Social Democracia Alemã e a Segunda Internacional, mas não com o marxismo, mas interpretado a partir de outros olhos.
Lenin e Trotsky também haviam rompido com a Segunda Internacional quando esta se declarou a favor da carnificina da guerra de lucros da burguesia européia: A Primeira Guerra Mundial.
Mas estes interpretaram e levaram o marxismo à cabo de uma maneira rígida aos ensinamentos de Marx, como a etapa “Socialista” do desenvolvimento dos meios de produção, isso num país rural como era a Rússia de 1917, para conseguir tal feito econômico criaram um dos aparelhos estatais mais repressivos da história, comparada ao nazi-fascismo e seu terror, A “ Ditadura do Proletariado ”, esmagou toda a vida autônoma e popular (revolucionária) nascida com a Revolução. Rosa Luxemburgo acreditava na participação cada vez maior das massas trabalhadoras na construção do socialismo e, não, um “Ditadura” de um partido “comunista” sobre os trabalhadores.Além dos milhões de mortos e exilados que eram enviados à Sibéria ou colocados em situação de trabalhos forçados ( ou os dois ) desde Lenin à Stalin.
Mas cabe lembrar que Marx e o marxismo tiveram à inovação no campo da ciência social do século dezenove, ao estudar o coletivo e suas conseqüentes relações de classe derivadas da propriedade privada; pode-se até argumentar que Marx e sua obsessão por um “socialismo científico” é a luta teórica com o anarquismo e especialmente Proudhon, que despertou, não só em Marx, mas em uma gama de revolucionários do seu tempo, o desejo de uma ciência “operária”, ou seja, uma filosofia e uma política(ação, prática) que envolvesse os fatores sociais e individuais da história das sociedades, analisando os fatos desagradáveis que os positivistas tentava ocultar sobre o discurso de “progresso”, que afetou tanto Marx posteriormente.
Era preciso analisar a propriedade, o Estado , a família, o trabalho, o indivíduo, enfim...toda a sociedade, toda a história e sua dialética:para os marxistas essa dialética é resultado das relações de trabalho e a constante luta entre explorados e exploradores, que contribui diretamente para a evolução dos meios de produção econômico e político, que estariam por trás da evolução humana da sociedade e da etapa “socialista” da construção do “comunismo”, por isso Marx disse que uma revolução socialista estaria madura nos países industrializados, como Alemanha e Inglaterra, e Lenin ao tomar o poder na Rússia que inicialmente era “soviética” sabia disso e, com punhos de ferro(Stalin significa “aço”), tomou a tarefa de industrializar a Rússia , o que demonstra na prática a filosofia de Marx: da supremacia do campo econômico sobre o social e o indivíduo na construção do socialismo. Esse é o “socialismo científico” desenvolvido por Marx.
Talvez seja por esse cientificismo que o partido de Marx e Engels, o Partido Social Democrata Alemão, seguidor da “Segunda Internacional” crida por Marx, privilegiava às eleições à luta direta contra o capitalismo, como a greve geral e a propaganda intensiva da tomada do poder pelos trabalhadores, isto é, a Revolução. Lenin preferiu desenvolver a indústria de seu país do que desenvolver o socialismo, ou seja, desenvolver uma sociedade onde os trabalhadores, organizados e donos da indústria urbana e rural, construíssem um mundo de fraternidade e igualdade, à partir da sua liberdade política econômica, ou seja, individual.
O anarquismo ultrapassa o marxismo no plano PRÁTICO porque o ultrapassa no plano TEÓRICO. Como vimos o marxismo aposta nas relações econômicas para explicar e superar a sociedade, por isso ele defende a estatização dos meios produtores de riqueza, tirando das mãos dos trabalhadores a produção e colocando sobre o controle do Estado, comandado nessa etapa pelos comunistas e seu partido. Eles(os marxistas) acreditam fielmente que desenvolvendo os meios de produção a um ponto que não falte nada para nenhum membro da sociedade e investindo na educação do povo, eles estarão assegurando o futuro “ comunista ” da sociedade, onde o povo não precisará mais de governo ou governante, isto por causa da fé que a teoria de Marx coloca nas relações econômicas como formadoras da consciência popular, como PRINCIPAL formadora.
O anarquismo, que não possui a preocupação de se auto intitular de “ científico ”,
considera, assim como Marx, a importância das relações econômicas na formação dos indivíduos de uma dada sociedade, mas não atribui a elas a maior importância na formação da sociedade, pois para o anarquismo as relações, por exemplo, simbólicas,
são tão importantes para uma sociedade e sua formação como são as relações econômicas, uma interfere na outra dialeticamente, fazendo com que a humanidade caminhe para diferentes formas, mas sempre com heranças passadas, seja para o “ progresso ” material ou intelectual de um povo ou época, seja para manter a sociedade dentro de certas formas de dominação e cultura. Portanto o anarquismo não é fechado como o marxismo, que utiliza das outras ciências humanas apenas para reforçar seu fraco ponto de vista econômico que visa responder tudo. O anarquismo está em contínua produção, pois ele não visa saber tudo, visa construir uma nova sociedade que respeite os direitos humanos e que faça que a humanidade caminhe sobre suas próprias pernas, sobre sua própria direção, sem controle de políticos, industriais ou generais.
Para essa análise humana ampla o anarquismo não privilegia nenhuma área do conhecimento humano em especial, privilegia TODAS, bebe em todas para entender o homem e a mulher na complexidade de suas vidas, pensamentos, limitações, desejos
e necessidades, apostando na SOLIDARIEDADE e na LIBERDADE à ciência prática da construção socialista.
Agora, após essa pequena introdução metodológica, vamos analisar de mais perto o conceito de Classes Sociais, utilizando da interdisciplinaridade para compreender a realidade social e humana formada durante milênios de civilização.
Herbert Marcuse, pensador social conceituado na academia, disse: “ A experiência mais séria de continuar a desenvolver a teoria social crítica foi realizada por WILHELM REICH em seus trabalhos primordiais ”. Wilhelm Reich, pensador europeu, foi discípulo de Sigmund Freud, mas rompeu com o mesmo após desenvolver suas próprias análises psíquicas do humano e seu meio social, análises essas que passam pela premissa freudiana da libido e da repressão, assim como do ego e do inconsciente(id).
Reich foi um pensador radical, e como dizia Marx...” ser radical é agarrar as coisas pela raiz e a raiz para o homem é o próprio homem ”, e Reich agarrou o homem e sua raiz de uma maneira que o mundo “civilizado” não suportou. Reich arrancou a máscara que uma sociedade alienada coloca em seus cidadãos...nas suas próprias palavras...
“ A estrutura do caráter do homem moderno, que reflete uma cultura patriarcal e autoritária de seis mil anos, é tipificada por um encouraçamento do caráter contra a sua própria natureza interior e contra a miséria social que o rodeia. Essa couraça do caráter é a base do isolamento, da indigência, do anseio de autoridade, do medo à responsabilidade, do anseio místico, da miséria sexual e da revolta neuroticamente impotente, assim como de uma condescendência patológica. O homem alienou-se a si mesmo da vida e cresceu hostil a ela. Essa alienação não é de origem biológica, mas sócio econômica. Não se encontra nos estágios da história humana anteriores ao desenvolvimento do patriarcado. ”
Por isso Proudhon disse que “ a propriedade era um roubo ”, quando Reich diz ... “desenvolvimento do patriarcado ” quer dizer o mesmo que desenvolvimento da propriedade privada, pois um desenvolve-se ao lado do outro, um e outro são inseparáveis na formação autoritária da civilização. Um fato importante encontrado na fala de Reich é que “ o homem alienou- se a si mesmo da vida e cresceu hostil a ela ”, ou seja, ele mesmo se auto escravizou( daí a importância que o anarquismo dá( e também o Dr. Reich) a “auto libertação”) e essa escravidão humana não é “ biológica ”(natural) mas “ sócio econômica ”.
Nossa escravidão e a alienação decorrente dela, é feita pelas nossas próprias mãos e ilusões, e só podem ser quebradas por um conhecimento racional e emocional da vida feito por nós mesmos.
As Classes Socias nascem portanto com a civilização autoritária e alienada(escravizada), elas atravessam a história, desde os primeiros impérios( Suméria, Mesopotâmia, Egito, China, Grécia) até o sistema capitalista atual ( imperialista e consumista).
O economista marxista Ernest Mandel diz:
“ ....ao longo da história, deparamos sempre com uma desigualdade social cristalizada em desigualdade de classe. Em cada uma destas sociedades podemos reencontrar uma classe de produtores que sustenta com seu trabalho o conjunto da sociedade, e uma classe dominante que vive à custa do trabalho alheio:
Camponeses e sacerdotes, senhores ou funcionários, nos Impérios do Oriente;
Escravos e senhores de escravos, na Antiguidade greco-romana;
Servos e senhores feudais, na alta idade média;
Trabalhadores e capitalistas, na época burguesa ”
Portanto, a civilização traz em seu germe e sua essência, a “ desigualdade de classe ”, onde uma minoria governante suga a energia da maioria trabalhadora e, ainda, destrói a capacidade criadora e humana do trabalho, o que nos distingue dos outros animais, que não conseguem modelar a natureza às suas necessidades e nem aprimorar suas habilidades a partir delas.
O desenvolvimento da propriedade privada e da família patriarcal(autoritária) se deu logicamente, nos seios das tribos indígenas que desenvolveram a arte da agricultura e também da criação de animais, o que proporcionava um armanezamento maior de vários alimentos, como: carne, leite, frutos..., além dos derivados como couro, sementes...
Isso proporcionava uma produção material(econômica) maior, o que despertou o interesse dos chefes religiosos e guerreiros de algumas tribos, que, para terem o direito de herança, tiveram que instaurar a propriedade privada e a família patriarcal, para que a linhagem matriarcal, de origem sócio econômica coletiva, acabasse e, para que também acabasse a liberdade de escolha sexual coletiva, isto é, livre, sem interesses econômicos, tanto do homem como da mulher; para transferir-se uma herança era preciso uma legitimidade sanguínea do pai , o que um sistema de liberdade sexual e matriarcal, não permitia.
Mas nem toda tribo que conheceu a agricultura e o “ excedente ” econômico, passou por esse processo “ civilizador ” da propriedade, patriarcalismo e herança. Ernest Mandel estudou as descobertas materialistas feitas por importantes antropólogos e constatou um sentimento de igualdade e solidariedade entre várias tribos indígenas que conheceram a agricultura:
“ ... vários antropólogos falam-nos dum hábito que se encontra entre numerosos povos primitivos, hábito que consiste em organizar festas da abundância, após as colheitas.
A antropóloga Margaret Mead descreveu-nos estas festas entre o povo papua dos Arapech ( Nova Guiné ). Todos os que tenham feito uma colheita acima da média, convidam toda a sua família e todos os seus vizinhos, e as festividades prosseguem até que a maior parte desse excedente tenha desaparecido. Margaret Mead acrescenta:
“ estas festas representam uma medida adequada para impedir que um indivíduo acumule riquezas... ”
O antropólogo Asch estudou os costumes e o sistema duma tribo existente no sul dos Estados Unidos, a tribo dos Hopi. Nesta tribo, contrariamente à nossa sociedade, o princípio da competição individual é considerável condenável do ponto de vista moral. Quando as crianças Hopi jogam ou praticam desportos, não contam nunca os pontos e ignoram o “ vencedor ”.
Quando as comunidades primitivas, que não se encontram ainda dividida em classes, praticam a agricultura como atividade economica principal e ocupamum determinado terreno, não organizam a exploração coletiva do solo. Cada família recebe uma área em usufruto por um certo período. Mas esses campos são redistribuídos frequentemente, para evitar favorecer este ou aquele membro da comunidade em detrimento dos outros. Os prados e os bosques são explorados em comum. Este sistema de comunidade rural , baseado na ausência de propriedade do solo, foi encontrado na origem da agricultura entre quase todos os povos do mundo, e demonstra que, nessa época, a sociedade não estava ainda dividida em classes ao nível da aldeia . ”
Isso nos demonstra que, apesar da civilização ( propriedade, domínio, herança , reinos, Estado, patriarcalismo...) ter se espalhado para o mundo até os dias de hoje, isso não quer dizer que ela represente a verdadeira natureza humana ; a civilização e seus criadores apenas subjugaram as pessoas e o trabalho e impuseram ao mundo um mundo alienado e sem forma, onde as pessoas executam um trabalho cego feitos por um domínio cego.
As classes sociais, a desigualdade a exploração, etc, nem sempre existiram e por isso nem sempre existirão. O egoísmo e a maldade não são inatos aos seres humanos ou apenas aos homens(que iniciaram a busca pelo poder), são construídos socialmente, como defendia também Wilhelm Reich e em certa medida Sigmund Freud.
Ernest Mandel ainda coloca um importante fato:
“ Tendo examinado as instituições sociais de 425 tribos primitivas, os antropólogos ingleses Hobhouse, Wheeler e Ginsberg encontraram uma ausência total de classes sociais entre todas as tribos que ignoram a agricultura. ”